Há uma frase que se ouve com frequência em qualquer conversa entre cultivadores mais experientes: “antes de mexeres na fertilização, mede o pH”. Não é exagero nem superstição — é, provavelmente, o conselho técnico mais valioso que existe para quem cultiva em casa, seja em terra, em fibra de coco ou em sistema hidropónico. Podes ter o melhor fertilizante do mercado, na dose certa, e mesmo assim ver a planta com sintomas de carência nutricional. Na maioria das vezes, o problema não está no que aplicas — está no facto de a planta não conseguir absorver o que já lá está, porque o pH ou a EC da solução não estão dentro da janela correcta.
Este artigo é um guia prático e aprofundado sobre controlo de pH e EC: o que estes dois valores significam de facto, porque determinam a saúde de todo o cultivo, quais as faixas-alvo por fase de crescimento e por tipo de substrato, como medir correctamente com um medidor de pH e EC, como calibrar o equipamento passo a passo, com que frequência deves repetir esse processo e quais os erros mais comuns que levam cultivadores a confiar em leituras erradas sem se aperceberem. Fechamos com uma secção dedicada à manutenção das sondas, que é, sem exagero, o factor que mais determina se um medidor de qualidade dura dois anos ou dez.
Vale sublinhar desde já: este é um artigo de cultura e hobby, centrado em instrumentação de medição, química de soluções nutritivas e boas práticas de cultivo doméstico e recreativo. Não faz qualquer alegação de saúde, uso terapêutico ou propriedades medicinais — fala apenas de como cuidares tecnicamente da tua planta.
O que são o pH e a EC, e porque importam tanto?
O pH (potencial de hidrogénio) é uma escala numérica, normalmente entre 0 e 14, que mede o grau de acidez ou alcalinidade de uma solução aquosa. O valor 7 representa a neutralidade; valores abaixo de 7 indicam acidez crescente, valores acima de 7 indicam alcalinidade crescente. É uma escala logarítmica, o que significa que cada unidade inteira representa uma variação de dez vezes na concentração de iões de hidrogénio — por outras palavras, a diferença entre um pH de 5,0 e um pH de 6,0 não é “pequena”, é uma ordem de grandeza completa. Isto explica porque é que pequenos desvios que parecem insignificantes no papel (por exemplo, regar sistematicamente com pH 7,5 em vez de 6,5) podem ter um impacto tão desproporcional na saúde da planta ao longo de semanas.
A EC (condutividade eléctrica, do inglês Electrical Conductivity) mede a capacidade de uma solução conduzir corrente eléctrica, o que está directamente relacionado com a quantidade de sais minerais dissolvidos nela — e os fertilizantes, sejam orgânicos ou minerais, são, quimicamente, compostos por sais. Quanto mais fertilizante dissolveres em água, maior a concentração de iões livres e maior a EC. Mede-se normalmente em mS/cm (milisiemens por centímetro), embora também vejas com frequência a mesma informação expressa em PPM ou TDS (partes por milhão / sólidos totais dissolvidos), que são apenas conversões da mesma leitura de condutividade usando factores de escala ligeiramente diferentes consoante o fabricante do medidor.
A razão pela qual estes dois valores dominam qualquer conversa séria sobre nutrição é simples: eles não substituem o fertilizante, mas determinam se esse fertilizante chega mesmo à planta. Podes ter uma solução nutritiva perfeitamente equilibrada em macro e micronutrientes e, ainda assim, obter uma planta com sintomas visíveis de carência — porque o pH bloqueia quimicamente a absorção de determinados elementos, ou porque a EC está tão alta que a pressão osmótica impede a raiz de absorver água e nutrientes com normalidade. É por isto que qualquer cultivador que leve o cultivo a sério acaba, mais cedo ou mais tarde, por investir num medidor de pH e EC dedicado, em vez de confiar apenas em tabelas de dosagem genéricas.
Porque é que o pH determina a absorção de nutrientes?
Cada nutriente essencial — azoto, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, ferro, zinco, manganês, entre outros — tem uma janela de pH específica dentro da qual está quimicamente disponível numa forma iónica que a raiz consegue absorver. Fora dessa janela, o nutriente pode estar fisicamente presente no substrato ou na solução, mas encontra-se numa forma química insolúvel ou precipitada, indisponível para absorção. A este fenómeno chama-se bloqueio de nutrientes (nutrient lockout), e é responsável por uma fatia enorme dos problemas de “carência” que os cultivadores tentam corrigir adicionando mais fertilizante — quando, na verdade, o problema não é falta de nutrientes, é falta de disponibilidade.
Um exemplo prático ajuda a perceber a mecânica: o fósforo e o cálcio tornam-se progressivamente menos disponíveis à medida que o pH desce abaixo de 6,0 em substratos de terra, enquanto o ferro, o manganês e o zinco perdem disponibilidade à medida que o pH sobe acima de 7,0. Isto significa que existe uma zona intermédia — normalmente entre 6,0 e 7,0 em terra — onde a maior variedade de nutrientes está simultaneamente acessível. Cultivar fora desta janela, mesmo que “só” meio ponto acima ou abaixo, começa a criar défices selectivos de determinados elementos, mesmo que a solução nutritiva aplicada esteja tecnicamente completa.
Há ainda um segundo efeito, menos falado mas igualmente relevante: o pH influencia a actividade da microbiologia do substrato — bactérias e fungos benéficos que decompõem matéria orgânica e disponibilizam nutrientes de forma gradual. Em substratos de terra viva, um pH muito fora da faixa ideal reduz esta actividade microbiana, o que reduz ainda mais a disponibilidade de nutrientes, criando um efeito em cascata. Por isso, corrigir o pH não é um “extra” opcional no cultivo — é o primeiro passo que determina se todo o resto do teu plano de nutrição vai funcionar como esperado.
Que papel desempenha a EC na nutrição da planta?
Se o pH determina se os nutrientes estão disponíveis, a EC diz-te quanto nutriente está de facto dissolvido na solução que vais aplicar. É, na prática, a ferramenta mais directa que tens para evitares o erro de nutrição mais comum entre cultivadores menos experientes: o excesso de fertilizante.
Quando a EC de uma solução nutritiva é demasiado elevada face ao que a planta consegue processar naquele momento do seu ciclo, gera-se um desequilíbrio de pressão osmótica entre a solução no substrato e o interior das células da raiz. Em condições normais, a água move-se para dentro da raiz porque a concentração de sais é mais baixa fora da célula do que dentro. Quando a EC externa sobe demasiado, esse gradiente inverte-se ou reduz-se drasticamente, e a raiz passa a ter dificuldade em absorver água — mesmo que estejas a regar com normalidade. O resultado visível é o chamado “nutrient burn”: pontas de folhas castanhas e quebradiças, tipicamente começando pelas folhas mais próximas do topo, onde a concentração de sais tende a acumular-se primeiro.
Por outro lado, uma EC demasiado baixa significa simplesmente que não estás a fornecer nutrientes suficientes para sustentar o ritmo de crescimento da planta naquela fase — o que se traduz em crescimento lento, folhagem pálida e um desenvolvimento geral aquém do potencial genético da planta. O objectivo prático é, portanto, encontrar e manter a EC dentro de uma faixa que acompanhe a curva de apetite nutricional da planta ao longo do ciclo: baixa no início, a subir gradualmente durante o crescimento vegetativo, e ajustada de novo consoante a resposta observada durante a floração.
Um hábito que compensa muito e que raramente é mencionado nos guias básicos: mede também a EC (e o pH) da água de escorrência (runoff) que sai do fundo do vaso depois de regares. Se a EC de saída for consistentemente mais alta do que a EC de entrada, é sinal de que os sais estão a acumular-se no substrato ao longo de regas sucessivas, e está na hora de fazer uma rega de lavagem apenas com água para reequilibrar o substrato antes de retomares a fertilização normal.
Quais são as faixas ideais de pH e EC por fase de cultivo?
Não existe um único valor “correcto” de pH e EC — existe uma progressão que acompanha o ciclo de vida da planta, desde a germinação até à colheita. Usar valores fixos do início ao fim é um erro comum que limita o potencial de crescimento em algumas fases e arrisca queimaduras por excesso noutras.
Na fase de germinação e plântula, a planta tem um sistema radicular minúsculo e extremamente sensível a concentrações elevadas de sais. Nesta fase, a EC deve manter-se muito baixa — tipicamente entre 0,4 e 0,8 mS/cm — e o pH deve estar bem ajustado desde o primeiro dia, porque não há margem de erro nem reserva nutricional acumulada para compensar desvios.
Na fase vegetativa, à medida que o sistema radicular se desenvolve e a planta ganha vigor, a EC pode subir progressivamente para valores entre 1,0 e 1,6 mS/cm, sempre ajustada consoante a resposta observada na folhagem — uma planta com folhas verde-escuras e crescimento vigoroso tolera valores mais próximos do topo da faixa; uma planta mais sensível ou de menor porte deve manter-se mais próxima do valor mínimo. O pH nesta fase mantém-se dentro da faixa geral do substrato escolhido (ver secção seguinte).
Na fase de floração, a exigência nutricional muda de perfil — menos azoto, mais fósforo e potássio — e a EC costuma subir ainda mais, tipicamente entre 1,4 e 2,2 mS/cm nas semanas de maior actividade floral, descendo depois gradualmente nas últimas semanas do ciclo, à medida que reduzes a fertilização em preparação para a colheita. É também frequente ajustar ligeiramente o pH-alvo para o limite inferior da faixa recomendada durante o pico da floração, porque o fósforo — elemento crítico nesta fase — tem melhor disponibilidade em valores ligeiramente mais ácidos.
Estes intervalos são referências de partida, não valores absolutos — a variedade, o vigor individual da planta, o substrato e até a qualidade da água de rega influenciam a faixa óptima real. A única forma fiável de saberes onde estás é medir consistentemente, semana após semana, com um medidor calibrado.
Terra ou hidroponia — Como muda o controlo de pH e EC?
O meio de cultivo que escolheres altera significativamente a forma como precisas de gerir pH e EC, porque cada substrato tem uma capacidade tampão química diferente — ou seja, uma capacidade diferente de “absorver” desvios antes de esses desvios afectarem a planta.
Em solo/terra viva, com matéria orgânica e actividade microbiana activa, existe uma capacidade tampão natural relativamente elevada. O intervalo de pH ideal situa-se geralmente entre 6,0 e 7,0, porque é nesta gama que a maior variedade de nutrientes está simultaneamente disponível e a vida microbiana do substrato funciona de forma óptima. Como o solo amortece pequenas variações, é normal medires o pH da água de rega antes de aplicar e confiares que o substrato absorve alguma da flutuação — o que não significa que o controlo seja dispensável, apenas que a margem de erro é ligeiramente maior do que noutros sistemas.
Em fibra de coco, que é um substrato quase inerte com pouquíssima capacidade tampão própria, o intervalo recomendado é ligeiramente mais ácido — entre 5,5 e 6,5 — porque a fibra de coco tem uma capacidade de troca catiónica elevada que “sequestra” cálcio e magnésio, trocando-os por potássio; um pH mal ajustado agrava directamente esse desequilíbrio. Como não há tampão biológico relevante, os desvios de pH afectam a planta muito mais depressa do que em terra, o que torna a medição regular praticamente obrigatória.
Em sistemas hidropónicos (NFT, DWC, ebb and flow, entre outros), a ausência total de substrato sólido tampão significa que o pH e a EC da solução no reservatório são, literalmente, tudo o que a raiz tem à sua disposição. O intervalo recomendado costuma situar-se entre 5,5 e 6,5, tal como na fibra de coco, mas aqui a velocidade de deriva é ainda maior — em ambientes de recirculação, o pH pode variar significativamente em poucas horas devido à absorção selectiva de nutrientes pela planta e à actividade microbiana no reservatório. É por isto que muitos cultivadores hidropónicos mais avançados investem em medidores contínuos ou controladores automáticos, e medem o pH e a EC pelo menos uma vez por dia, se não várias.
Em qualquer um dos três sistemas, o princípio de fundo é o mesmo: quanto menos capacidade tampão o meio de cultivo tiver, maior a frequência de medição que precisas de manter.
Como medir o pH e a EC correctamente?
Medir bem não é apenas mergulhar a sonda e ler o número — há uma sequência de cuidados técnicos que determina se a leitura reflecte a realidade ou te está a enganar sem que percebas.
Primeiro, garante que a temperatura da solução está estabilizada, idealmente entre os 20 °C e os 25 °C. Tanto o pH como a EC são sensíveis à temperatura — a condutividade eléctrica, em particular, aumenta com a temperatura, e muitos medidores de EC modernos já incluem compensação automática de temperatura (ATC), mas vale sempre a pena confirmar se o teu equipamento tem essa função activa, porque um medidor sem ATC pode dar-te leituras distorcidas em dias mais quentes ou mais frios.
Segundo, agita bem a solução antes de medires. Numa solução nutritiva recém-preparada, os sais podem não estar completamente dissolvidos e homogeneizados, o que produz leituras inconsistentes consoante o ponto exacto onde mergulhas a sonda. Espera também alguns segundos depois de mergulhares a sonda para a leitura estabilizar — a maioria dos medidores de qualidade mostra no ecrã quando o valor “assentou”, mas em modelos mais simples é boa prática esperar pelo menos 15 a 30 segundos antes de anotares o número.
Terceiro, mergulha a sonda até à profundidade indicada pelo fabricante — normalmente até cobrir completamente o bolbo de vidro sensível (no caso do pH) ou os eléctrodos (no caso da EC), sem tocar no fundo do recipiente. Evita agitar violentamente a sonda dentro do líquido; um movimento suave e circular é suficiente para eliminar bolhas de ar que possam ter ficado presas na superfície sensora.
Quarto, se estiveres a medir directamente no substrato (por exemplo, com uma sonda de solo), garante que o substrato está húmido o suficiente para permitir contacto eléctrico adequado — solo seco ou pouco húmido dá leituras erráticas e pouco fiáveis, independentemente da qualidade do medidor.
Por fim, lava sempre a sonda com água destilada ou desionizada entre medições diferentes (por exemplo, entre medir a solução nutritiva e medir a água de escorrência), para evitar contaminação cruzada entre amostras com concentrações de sais muito diferentes. Um medidor combinado, como o BLUELAB – COMBO METER, que mede pH, EC e temperatura num único aparelho, simplifica bastante esta rotina, porque evitas ter de gerir dois equipamentos separados com dois protocolos de manutenção diferentes.
Como calibrar um medidor de pH e EC passo a passo?
Calibrar não é opcional — é o que transforma um medidor num instrumento fiável. Um medidor descalibrado pode continuar a mostrar números que parecem plausíveis, mas que estão sistematicamente errados, o que é, na prática, pior do que não medir de todo, porque cria uma falsa sensação de controlo.
Para o pH, o processo standard usa duas (por vezes três) soluções-padrão de referência com valores conhecidos — normalmente pH 4,0, pH 7,0 e, em alguns protocolos, pH 10,0. O procedimento típico é:
- Retira a sonda da solução de conservação e enxagua-a com água destilada.
- Mergulha a sonda na solução-padrão de pH 7,0 (o ponto de calibração central, geralmente o primeiro a fazer) e aguarda a estabilização da leitura.
- Ajusta o medidor — em modelos manuais, com o parafuso ou botão de calibração indicado; em modelos digitais automáticos, confirma o ponto de calibração através do menu do próprio aparelho.
- Enxagua novamente a sonda com água destilada e repete o processo com a solução de pH 4,0 (para cultivo em substratos mais ácidos, como fibra de coco ou hidroponia) ou pH 10,0 (menos comum em cultivo doméstico, mas relevante em contextos específicos).
- Confirma que o medidor regista correctamente ambos os pontos antes de dares o processo por concluído.
Para a EC, o processo é semelhante mas geralmente mais simples, porque costuma bastar um único ponto de calibração com uma solução-padrão de condutividade conhecida (por exemplo, uma solução de 1,413 mS/cm ou 2,77 mS/cm, consoante o modelo e a gama de medição habitual do teu cultivo). Mergulha a sonda, aguarda a estabilização, ajusta o medidor para corresponder ao valor de referência da solução, e enxagua a sonda com água destilada antes de a guardares ou usares novamente.
Um pormenor importante: nunca reutilizes a mesma porção de solução-padrão para múltiplas calibrações ao longo do tempo — a solução contamina-se ligeiramente a cada uso e perde precisão. Usa sempre uma quantidade nova a cada calibração e descarta o que sobrar depois de usado, em vez de o devolveres ao frasco original.
Com que frequência devo calibrar o meu medidor?
A regra geral mais repetida entre cultivadores experientes é: calibra o medidor de pH pelo menos uma vez por semana durante um cultivo activo, e sempre antes de qualquer decisão importante baseada numa leitura — por exemplo, antes de misturares uma nova bateria de solução nutritiva para toda a semana. A sonda de pH, ao contrário da sonda de EC, tende a perder precisão de forma relativamente rápida, porque a membrana de vidro sensível ao pH se degrada gradualmente com o uso e com a exposição ao ar.
A sonda de EC costuma manter-se estável durante mais tempo e tolera intervalos de calibração ligeiramente mais espaçados — a cada duas ou três semanas costuma ser suficiente para a maioria dos utilizadores domésticos — mas nunca vale a pena assumir isso sem confirmar: se notares leituras que parecem inconsistentes com o que esperarias (por exemplo, a EC da água de escorrência a sair sistematicamente mais baixa do que a EC de entrada, o que raramente faz sentido fisicamente), a primeira suspeita deve ser sempre a calibração, antes de assumires um problema na planta ou no substrato.
Há ainda alguns momentos específicos em que a calibração deve ser feita independentemente do calendário habitual: sempre que o medidor tiver estado guardado sem uso por mais de uma ou duas semanas, sempre que a sonda tiver secado por engano (o que acontece com frequência quando o líquido de conservação se esgota ou evapora do respectivo capuz protector), e sempre que o medidor tiver sofrido uma queda ou um choque físico, mesmo que aparentemente sem danos visíveis.
Manter um pequeno registo — mesmo que seja só uma anotação na aplicação do telemóvel ou num caderno junto à área de cultivo — de quando calibraste pela última vez ajuda imenso a criar o hábito, sobretudo nas primeiras colheitas, antes de a rotina se tornar automática.
Quais são os erros mais comuns na medição de pH e EC?
O primeiro erro, e provavelmente o mais frequente, é assumir que o medidor está sempre certo só porque mostra um número no ecrã. Um medidor descalibrado continua a funcionar tecnicamente — continua a acender, a mostrar dígitos, a reagir a diferentes líquidos — mas os valores que apresenta podem estar sistematicamente desviados, por vezes em meio ponto inteiro de pH, o suficiente para causar bloqueio de nutrientes sem que percebas que a origem do problema está no próprio equipamento.
O segundo erro comum é medir só a solução de entrada e nunca a de escorrência. Isto significa que perdes toda a informação sobre o que está de facto a acontecer dentro do substrato — se os sais se estão a acumular, se o pH está a derivar para fora da faixa desejada ao longo de regas sucessivas — e só descobres o problema quando já há sintomas visíveis na folhagem, altura em que a correcção demora mais tempo a fazer efeito.
O terceiro erro é deixar a sonda secar entre utilizações, especialmente a sonda de pH. A membrana de vidro sensível precisa de se manter hidratada em solução de conservação apropriada para funcionar correctamente; uma sonda que seque, mesmo que apenas uma vez, pode perder sensibilidade de forma permanente ou exigir um processo de reidratação prolongado antes de voltar a dar leituras fiáveis.
O quarto erro é ignorar a temperatura da solução medida, sobretudo em medidores de EC sem compensação automática de temperatura — medir água fria vinda directamente da torneira dá valores de EC mais baixos do que a mesma solução à temperatura ambiente, o que pode levar-te a fertilizar acima do que pretendias sem perceberes.
O quinto erro, mais subtil, é corrigir o pH de forma agressiva, adicionando grandes quantidades de solução reguladora de uma só vez em vez de fazer ajustes pequenos e graduais, agitando e voltando a medir entre cada correcção. Isto costuma resultar num efeito de “pêndulo” — passas de um extremo ao outro sem nunca estabilizares num valor intermédio estável, e a solução final acaba com uma concentração de sais mais elevada do que a pretendida, porque cada correcção de pH também introduz sais adicionais na solução.
Como cuidar e conservar as sondas do medidor?
A sonda é, sem dúvida, o componente mais delicado e mais caro de substituir num medidor de pH e EC — cuidar bem dela é o que determina se o teu investimento dura vários ciclos de cultivo ou se precisas de comprar um medidor novo dentro de poucos meses.
Para a sonda de pH, a regra fundamental é: nunca a deixes secar. Depois de cada utilização, enxagua-a com água destilada e guarda-a mergulhada na solução de conservação própria (normalmente uma solução de cloreto de potássio, vendida especificamente para este fim), dentro do capuz protector que acompanha o medidor. Se notares que o capuz secou ou que a solução de conservação se esgotou, repõe-na imediatamente — nunca guardes a sonda seca “só por uns dias”, porque é precisamente esse tipo de descuido pontual que degrada a membrana de vidro de forma irreversível.
Para a sonda de EC, a manutenção é ligeiramente menos exigente porque os eléctrodos costumam ser mais robustos, mas ainda assim vale a pena enxaguá-la com água destilada após cada uso e evitar deixá-la em contacto prolongado com soluções muito concentradas ou com resíduos de fertilizante seco, que podem acumular-se na superfície dos eléctrodos e distorcer leituras futuras.
Periodicamente — a cada duas ou três semanas em uso regular — vale a pena fazer uma limpeza mais profunda das sondas com um líquido de limpeza específico, formulado para dissolver depósitos minerais e resíduos orgânicos que a simples lavagem com água não remove. Nunca uses álcool, detergente doméstico ou outros produtos de limpeza genéricos nas sondas — são formulados para outras finalidades e podem danificar permanentemente a superfície sensora.
Guarda o medidor completo, quando não estiver em uso, num local protegido de temperaturas extremas e de luz solar directa, e evita guardá-lo com as pilhas ou baterias esgotadas dentro do compartimento, porque a corrosão que daí resulta pode afectar os contactos eléctricos internos.
Se procuras equipamento fiável para começar ou renovar o teu kit de controlo, a categoria de Controlo do pH e EC reúne medidores dedicados de pH, medidores de EC/TDS, soluções de calibração e líquidos de limpeza de sondas de marcas como Bluelab, Hanna Instruments e Milwaukee, além das soluções reguladoras de pH das principais linhas de nutrição, como a BIO NOVA – PH DOWN e a BIOBIZZ – PH +. E se tiveres dúvidas sobre qual combinação de equipamento faz mais sentido para o teu setup específico — tamanho de cultivo, tipo de substrato, orçamento disponível — a equipa da loja pode ajudar-te a esclarecer através da página de contacto. Se preferires trocar experiências directamente com outros cultivadores sobre rotinas de calibração, marcas de medidores e truques práticos que funcionam no dia-a-dia, a Comunidade da Maria é o espaço certo para isso.
Que outros artigos do blog podem interessar-te?
- Regulação de pH: Quando e Como Usar pH Up e pH Down
- Nutrição Vegetal e Substratos: Fertilizantes Organo-minerais e NPK
Perguntas frequentes
O que acontece se regar com o pH errado durante muito tempo?
Regar sistematicamente fora da faixa ideal de pH bloqueia gradualmente a absorção de determinados nutrientes, mesmo que a solução nutritiva esteja correctamente formulada. A planta desenvolve sintomas de carência que se confundem facilmente com falta de fertilizante, o crescimento abranda e, em casos prolongados, o substrato acumula desequilíbrios químicos difíceis de corrigir rapidamente.
Posso usar o mesmo medidor para pH e EC?
Sim, existem medidores combinados — muitas vezes chamados medidores “combo” — que integram sondas de pH e de EC (e por vezes também de temperatura) num único aparelho. São uma opção prática para quem prefere simplificar a rotina de medição, embora medidores dedicados e separados possam oferecer, em alguns casos, maior precisão em cada parâmetro individual.
Água da torneira serve para preparar soluções-padrão de calibração?
Não. As soluções de calibração devem ser sempre as soluções-padrão comerciais, formuladas com precisão certificada para um valor exacto de pH ou de EC. Água da torneira tem uma composição variável e imprevisível, pelo que nunca deve substituir uma solução-padrão no processo de calibração.
Quanto tempo dura uma sonda de pH antes de precisar de substituição?
Com manutenção adequada — sem deixar secar, com limpeza regular e calibração frequente — uma sonda de pH de qualidade pode durar entre um e dois anos de uso regular. Sinais de que está a chegar ao fim da vida útil incluem tempos de estabilização cada vez mais longos e dificuldade crescente em manter a calibração entre usos consecutivos.
Devo medir o pH antes ou depois de adicionar o fertilizante à água?
Deves medir sempre depois de dissolveres completamente o fertilizante na água, porque a maioria dos fertilizantes altera o pH da solução de forma significativa. Medir e ajustar o pH antes de adicionares o fertilizante dá-te um valor que já não corresponde à solução final que vais aplicar à planta.
Que EC devo usar se não souber a variedade ou o vigor da planta?
Na dúvida, começa sempre pelo valor mais baixo recomendado para a fase em que a planta se encontra e sobe gradualmente ao longo de vários dias, observando a resposta da folhagem entre regas. É sempre mais fácil e seguro corrigir uma EC demasiado baixa do que recuperar uma planta afectada por excesso de sais.
Preciso de recalibrar o medidor se ele cair ao chão?
Sim, mesmo sem danos visíveis. Um choque físico pode desalinhar internamente os componentes sensores sem que isso seja perceptível a olho nu, pelo que a única forma de confirmares que o medidor continua fiável depois de uma queda é repetir o processo completo de calibração antes de voltares a confiar nas leituras seguintes.










